Rumo ao desconhecido
No final de uma tarde de sábado, em 19 de agosto de 1961, o transatlântico de 9.450 toneladas, chamado “Charles Tellier”, sob bandeira da França, saiu do porto de Antuérpia, na Bélgica, com destino ao Brasil. Levava a bordo o primeiro grupo de colonos provenientes do ex-Congo Belga.
No cais 23, familiares e amigos estavam ali para se despedir
daqueles que podemos chamar de pioneiros, já que seriam os
primeiros a partir para o Brasil, embora seu destino não fosse
Botucatu ainda.
Chegariam sim em Botucatu, mas somente após desencontros que nenhum
deles imaginava naquele momento. Contarei a respeito desses
desencontros em outra ocasião. Eram pioneiros, levando-se em conta
o contexto da época e do momento, mesmo se outra viagem de
emigrantes belgas já tivesse ocorrido no século dezenove.
Este primeiro grupo era composto de 50 homens que tinham em média 35 anos. Os dois grupos linguísticos da Bélgica, valões e flamengos, estavam representados. A maioria era de expressão francesa e o restante (20) de expressão flamenga. Todos eram chefes de família (com exceção de um solteiro) e todos haviam passado por uma das três escolas agrícolas que existiam no ex Congo Belga.
É claro que, na ocasião, as autoridades não poderiam ter deixado de fazer uma cerimônia. E foi isso mesmo que aconteceu com a presença do Ministro das Relações Exteriores da época, M. Brasseur e do Cônsul Geral do Brasil em Antuérpia, Senhor Gatti. Naquele ato solene encontravam-se também outras autoridades do governo belga, satisfeitas de terem encontrado uma solução para uma parte dos refugiados do ex-Congo Belga.
Os emigrantes partiram sozinhos, deixando suas famílias para trás. As 150 pessoas, entre mulheres e crianças ficaram ali, vendo maridos e pais se afastarem no horizonte. Era previsto que partissem uns dois meses depois. Era preciso que fosse assim porque era necessário construir as casas, uma escola para as crianças, toda a intraestrutura indispensável para receber as mulheres e as crianças e começar da melhor maneira possível uma nova vida.
Entre os homens havia certo entusiasmo e uma esperança enorme,
pois ninguém duvidava que a empreitada fosse coroada de sucesso.
Afinal, já era hora para essas pessoas que vinham do conflito
africano onde perderam tudo e de onde escaparam, por vezes por
um triz, de serem massacrados, que as coisas dessem certo. E eles
tinham motivos para acreditar nisso. O governo belga havia
consentido em liberar um crédito de 400.000 francos belgas para
cada chefe de família, pagável em 25 anos e com juros baixos. Por
outro lado, o governo brasileiro havia prometido 4.200 hectares de
terras, numa concessão de 90 anos para os 100 primeiros colonos
belgas, o que correspondia aproximadamente a 30 hectares por
família. A terra em questão era aquela que se tornaria Holambra II, em
Paranapanema. Promessas, portanto que, por uma série de razões, só
se realizaram em parte. Os belgas foram afinal para Botucatu, mais
tarde, em circunstâncias que relatarei em outro momento.
O projeto de fazer uma cooperativa e de mandar colonos para o Brasil havia nascido antes, após uma viagem ao Brasil de uma missão belga em fevereiro de 1961. E tal projeto foi elaborado graças à colaboração do governo brasileiro que estava interessado em emigrantes que tivessem experiência em agricultura em países tropicais. Neste quesito, diga-se, os belgas tinham experiência de sobra. Por esta razão, as autoridades brasileiras se comprometeram em garantir todas as facilidades aos belgas quando chegassem a São Paulo. Para começar, cancelaram para o caso, o critério referente ao limite de idade e ofereceram a possibilidade de conservarem a nacionalidade belga, além da possibilidade de trabalharem por conta própria.
Aliás, o estado da Bahia chegou, por conta própria, a fazer gestões junto ao governo belga, oferecendo vantagens diversas, com o objetivo de levar os colonos belgas para lá. O que mostra o grande interesse que os belgas despertavam em função dos seus conhecimentos em agricultura tropical.
Tristan Dierckx (Monte Alegre)

Le "Charles Tellier"
Vers l’inconnu
En fin d’après-midi du samedi 19 août 1961, le « Charles Tellier », paquebot de 9.450 tonnes, navigant sous pavillon français, quittait le port d’Anvers en direction du Brésil. À bord, le premier groupe de colons en provenance de l’ancien Congo Belge.
Sur le quai 23, les familles et les amis étaient là pour
assister au départ de ceux que nous pouvons appeler des pionniers,
puisque c’étaient les premiers qui partaient au Brésil, même
si leur destin n’était pas encore Botucatu. Ils arriveraient
à Botucatu,
mais après des contretemps qu’ils n’imaginaient pas
encore et que je raconterai à un autre moment. C’étaient
effectivement des pionniers, si l’on tient compte du contexte
de l’époque et du moment, même s’il y avait déjà eu un
autre voyage d’émigrants Belges au 19e siècle.
Ce premier groupe était formé de 50 hommes qui avaient une moyenne de 35 ans. Il y avait vingt Flamands et trente Wallons, unis dans cette odyssée vers l’autre bout du monde. Ils étaient tous chefs de famille (à l’exception d’un célibataire) et étaient tous passés par l’une des trois écoles agricoles qui existaient au Congo Belge.
Bien sûr, c’était une belle occasion pour que les autorités belges en fassent une cérémonie officielle, trop heureux d’avoir trouvé une solution pour une partie des réfugiés de l’ex-Congo Belge. Et c’est exactement ce qui se passa avec la présence de Monsieur Brasseur, Ministre des affaires étrangères de l’époque, et Monsieur Gatti, Consul Général du Brésil à Anvers. Bien entendu il y avait aussi d’autres autorités du gouvernement belge.
Les émigrants partirent seuls, laissant leurs familles sur le quai. Les 150 personnes, entre femmes et enfants, restèrent là faisant des signes d’adieu au paquebot qui disparaissait à l’horizon emportant leurs maris et leurs pères. Ils devaient partir environ deux mois plus tard, car il fallait construire les maisons, une école pour les enfants, toute l’infrastructure indispensable à recevoir les femmes et les enfants, de manière à commencer une nouvelle vie de la meilleure façon possible.
Il y avait évidemment une certaine dose d’appréhension
parmi ces hommes, mais aussi beaucoup d’espoir, car personne
ne doutait de l’issue favorable de ce voyage. Pour des gens
qui avaient tout perdu en Afrique et dont certains avaient échappé
de peu aux massacres,
il fallait que les choses commencent à marcher. Ils avaient même
quelques raisons d’y croire. Le gouvernement belge avait
consenti à libérer un crédit de 400.000 francs belges pour chaque
chef de famille, payable en vingt-cinq ans et à un intérêt très
bas. D’autre part, le gouvernement brésilien avait promis
4.200 hectares de terres, avec une concession de 90 ans pour les
cent premiers colons Belges, ce qui voulait dire environ 30
hectares par famille. La terre en question était celle qui
deviendrait plus tard Holambra II (colonie
Hollandaise), à Paranapanema.
Promesses, comme nous le voyons, qui ne se sont pas réalisées comme
prévu. Les Belges arriveraient finalement à Botucatu, mais plus
tard, dans des circonstances que je raconterai à un autre
moment.
Le projet de faire une coopérative agricole et d’y envoyer des réfugiés de l’ex-Congo Belge au Brésil était né un peu avant, lors d’un voyage au Brésil d’une mission belge, en février 1961. Et ce projet avait été élaboré grâce à la collaboration du gouvernement brésilien qui souhaitait faire venir des émigrants ayant de l’expérience en agriculture tropicale. Et ces Belges en avaient une grande expérience. C’est pour cela que le gouvernement brésilien avait pris l’engagement de faciliter les choses aux immigrants belges quand ils arriveraient à São Paulo. Par exemple, il annulait la limite d’âge normalement imposée aux immigrants, leur offrait la possibilité de conserver la nationalité belge et de pouvoir travailler pour leur propre compte s’il le souhaitait.
D’un autre côté, l’État de Bahia (toujours au Brésil) fit des gestions auprès du gouvernement belge offrant divers avantages, dans le but d’y recevoir des colons de l’ex-Congo Belge. Ce qui montre que les connaissances que les Belges possédaient en agriculture tropicale éveillaient l’intérêt de tous.
Tristan Dierckx (Monte Alegre)


Bob y est allé tout seul et je ne pourrais en dire que ce
qu’il m’en a lui-même raconté :
seconde jusqu’à son accomplissement dans les rires et la
joie.
Bob foi
sozinho e eu não poderia contar nada, a não ser o que ele mesmo me
contou:
ele havia
experimentado do espumante vinho de palma... Mas um grande passo
havia sido feito : a casa existia.
























Scènes de fin du monde / Cenas de fim do mundo
Patrick Lapeyre - Prix Fémina 2010
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